terça-feira, 25 de dezembro de 2012

sábado, 22 de dezembro de 2012

Época de Natal...

... para alguns e de tristeza para muitos.

Presépio (315 x 285 cm)
Paulo Miguel Pinheiro Martinho

Presépio (muito actual: sem vaca nem burro...)
Artesanato do Peru (7 x 8 x 5 cm)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Revelação

Soube há dias que o meu primo Carlos Pinheiro Colaço (cf. post anterior) tem um hobby: a pintura. Com uma particularidade: para ele quaisquer suportes servem... Foi uma agradável surpresa. Gostei muito do que vi. Houve quem dissesse: Temos mais um artista na família... Aqui ficam três exemplos do seu trabalho (atenção: as fotografias são meio-artesanais).




Clicar sobre as fotografias para as ampliar.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Encontro de primos

A minha tia Julieta Pinheiro Colaço (Avó Jú para os mais jovens da família) sugeriu um dia que os filhos – Abel Pinheiro Colaço (médico) e Carlos Pinheiro Colaço (professor universitário) – se reunissem mais vezes com os sobrinhos Maria da Piedade Pinheiro Martinho, Rosa Maria Pinheiro Diogo e Adalberto Pinheiro. Pelo menos uma vez por ano, dizia ela, porque “só nos encontramos nos funerais”… expressão que me faz lembrar a "Dedicatória aos Amigos" de Fernando Pessoa (ver aqui).

Os nossos encontros têm acontecido regularmente desde então. Este ano o encontro possível (nem todos puderam comparecer à chamada) deu-se num almoço no restaurante “O Barbas” (Costa da Caparica), onde tudo é do Benfica, incluindo a garoupa e o robalo grelhados que comemos…

 A tia Julieta com os filhos e com os sobrinhos (2006)

 O Abel e o Carlos com as respectivas esposas Teresa e Madalena

  Os três primos presentes no almoço (Abel, Piedade e Carlos)

domingo, 16 de dezembro de 2012

Carteiristas há muitos

Meu artigo publicado em 13.Dez.2012 no semanário O MIRANTE

Carteiristas há muitos, os propriamente ditos e os outros. Os propriamente ditos são os carteiristas encartados, digamos assim, como os que operam em Lisboa, sobretudo em áreas frequentadas por turistas.

Dizia um jornal há dias que um carteirista de 55 anos havia sido presente ao DIAP 41 vezes desde 1999. Este é um bom exemplo de carteirista encartado, embora não se saiba se pertence a alguma Associação Nacional de Carteiristas, com cartão e tudo, ou se a profissão consta do bilhete de identidade.
Mais dizia a notícia que o homem não ofereceu resistência no momento da detenção – o que, de acordo com a PSP, revelava “maturidade criminosa” – e foi entregue ao Estabelecimento Prisional de Lisboa para cumprir uma pena de prisão em “regime de dias livres”. Que quer isto dizer? Significa que se apresentava voluntariamente todas as sextas-feiras à noite e ficava encarcerado até à manhã da segunda-feira seguinte. Porquê? Porque o juiz entendeu que o crime cometido não fora especialmente gravoso, e não existiam motivos para que o condenado ficasse longe da família e se sujeitasse a perder o emprego. Ora aqui está uma condenação humanizada: o juiz não quis que o carteirista perdesse o emprego e zelou pelo bem-estar familiar.
Os carteiristas encartados são perigosos para o País? Verdadeiramente, não. É certo que causam incómodos pessoais e não são publicidade que se recomende junto dos turistas, mas não são especialmente perigosos. Roubam uma carteirita aqui, outra ali, às vezes até com pouco dinheiro, que a crise a todos afecta. Numa palavra, procuram apenas ganhar a vidinha.
O problema para o País não são os carteiristas propriamente ditos, são os outros. Pelo que consta nos órgãos de comunicação social, esses outros usam gravatas caras e fatos de estilo; movimentam-se em instituições onde está em jogo dinheiro graúdo; conhecem bem os paraísos fiscais; fazem falcatruas, provocam desfalques e rombos bancários; promovem parcerias ruinosas para o Estado. Aparentemente são difíceis de identificar, pelo que – oh justiça suprema! – andam por aí à solta, sem cuidados ou receios de maior.
E quem paga as malfeitorias desses outros carteiristas? Somos todos nós, claro, os cidadãos comuns. A crise em que o País se encontra não aconteceu por acaso. Dizem-nos que a causa do “buraco” é os portugueses terem andado a gastar acima das suas possibilidades. A verdade é outra, apesar de alguém do DCIAP nos ter dito, “olhos nos olhos”, que “os nossos dirigentes não são corruptos”.
Agora, ao fim de tantos ajustamentos, optimismos e previsões falhadas, vêm dizer-nos que é necessário “refundar” umas coisas… Será desta que vamos mesmo ao “fundo”? Talvez não, calma. Não foi um distinto banqueiro que afirmou há dias que o povo aguenta ainda mais austeridade? Então…

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Eles levam tudo, eles levam tudo...

... e até levaram o marco do correio do Largo do Leão
(no enfiamento da Avenida Manuel da Maia, Lisboa)


Clicar sobre a fotografia para a ampliar.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Como dás as aulas?

Meu artigo publicado em 29.Nov.2012 no semanário O MIRANTE

O Nelo entrou no meu gabinete e, após umas primeiras palavras de circunstância, perguntou-me: «Como dás as aulas?». Percebi que o assunto era sério, porque vi comoção no olhar do meu colega.

Ambos tínhamos em comum uma turma do curso de Física (1978-1983) na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Eram alunos que tinham uma craveira intelectual acima da média. De entre eles, vieram a destacar-se, por exemplo, os actuais professores da FCUL João Lin Yun (Astrofísica), Luís Matias (Geofísica) e Margarida Cruz (Física da Matéria Condensada), e o investigador do Laboratório Nuclear de Sacavém Nuno Pinhão (Física Atómica e Molecular). Como eu não tinha razões de queixa da turma e os mesmos alunos consternavam o Nelo pelo seu alheamento nas aulas, percebe-se a pergunta: «Como dás as aulas?».
Que podia eu responder ao Nelo que ele não soubesse? Foram momentos de grande constrangimento. Julgo que o que lhe disse não deve ter servido para muito, porque o problema não tinha a ver com a competência científica dele, nem com a preparação das aulas ou a falta de empenhamento. A questão era outra… e eu nada podia fazer para o ajudar a desatar aquele nó cego.
Rómulo de Carvalho disse um dia, numa entrevista ao Jornal de Letras, que a aptidão para o ensino «não é coisa que os professores aprendam nas escolas, quando estão a preparar-se para a profissão, é uma coisa natural», ao que acrescentou um “mas”: «fartei-me de trabalhar, sabe, fartei-me de trabalhar.» É claro que um candidato a professor pode apreender ensinamentos no sentido de tornar mais eficaz a sua aptidão para comunicar, mas tais ensinamentos são apenas condições necessárias, que não suficientes.
Há qualquer coisa de indefinível que faz com que os bons professores – aqueles que marcam os alunos e são recordados com carinho – se destaquem dos outros. Serão, em geral, as qualidades humanas? Será, em particular, o perfil físico? O tom de voz? A experiência? O empenhamento? A honestidade? A humildade? A imaginação? A disponibilidade? O jeito para dialogar? A capacidade de fomentar e gerir cumplicidades? Não sei. Sei apenas que dos professores bem se pode dizer que “são muitos os chamados... mas poucos os escolhidos”.
PS – Há dias enviei um email a um dos alunos mencionados acima para lhe pedir uma informação. Já não contactávamos há uns trinta anos… E eis que, na volta do correio, ele me surpreendeu: «É com enorme gosto que recebo e leio uma mensagem sua. Gostaria que soubesse que foi dos melhores professores que tive na FCUL, alguém de quem guardo uma recordação muito positiva e construtiva.» O leitor não acha natural que este testemunho me tenha dado uma grande alegria?

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Dave Brubeck (1920-2012)


Morreu ontem o famoso compositor e pianista de jazz americano Dave Brubeck.

Descobri o tema Take Five (de Paul Desmond) no princípio da década de 1960 em Paris. Foi uma revelação. Ouvia-se um pouco por todo o lado. Um êxito avassalador. 

Vale a pena recordar o tema aqui (1959).

Cf. Biografia de Dave Brubeck aqui.

Eles garantem que não terão dito o que disseram...




"Objectos vegetais" da autoria de:
Paulo Miguel Pinheiro Martinho 
Cf. http://madeiraviva.blogspot.pt/

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

In Memoriam Doutor J.L. Nunes Petisca (1922-1996)


Autor da fotografia: Joaquim António Emídio

José Lino Nunes Petisca nasceu na Chamusca (Ribatejo) a 10 de Maio de 1922 e morreu em Lisboa a 3 de Dezembro de 1996. Era licenciado e doutorado em Ciências Médico–Veterinárias. Foi um distinto Patologista fundador de uma autêntica Escola Portuguesa de Anátomo–Histopatologia Veterinária. (…) Nunes Petisca gostava de ensinar. Era de fácil abordagem e tornava-se facilmente querido dos seus alunos, que o respeitavam e admiravam. (…) A Universidade Técnica de Lisboa distinguiu-o com o título de “Conselheiro da Universidade” e a Ordem dos Médicos-Veterinários agraciou-o com o título de “Membro Honorário”. Foi autor de mais de duzentas publicações dispersas por numerosas revistas científicas nacionais e estrangeiras (ver texto completo aqui). Publicou artigos de divulgação científica em periódicos da nossa terra natal comum: revista trimestral Chamusca Ilustrada e semanário O Mirante.

Consultando a base de dados norte-americana ISI Web of Knowledge, constatei que trabalhos científicos assinados pelo Doutor J.L. Nunes Petisca continuam a ser citados a nível internacional. 

Segue-se a listagem de artigos de autores estrangeiros publicados após o falecimento do Doutor J.L. Nunes Petisca (faz hoje 16 anos), onde são citados trabalhos científicos seus. Dele se pode dizer que o Cientista morreu... mas a Obra perdura!

Author(s): Cetre-Sossah, Catherine; Billecocq, Agnes; Lancelot, Renaud; et al.
Source: PREVENTIVE VETERINARY MEDICINE  Volume: 90   Issue: 1-2   Pages: 146-149   DOI:10.1016/j.prevetmed.2009.03.011   Published: JUL 1 2009

Author(s): Tulman, E. R.; Delhon, G. A.; Ku, B. K.; et al.
Book Editor(s): VanEtten, JL
Source: LESSER KNOWN LARGE DSDNA VIRUSES  Book Series: CURRENT TOPICS IN MICROBIOLOGY AND IMMUNOLOGY   Volume: 328   Pages: 43-87   Published: 2009

Author(s): Bhanuprakash, V; Indrani, BK; Hosamani, M; et al.
Source: COMPARATIVE IMMUNOLOGY MICROBIOLOGY AND INFECTIOUS DISEASES  Volume: 29  Issue: 1   Pages: 27-60   DOI: 10.1016/j.cimid.2005.12.001   Published: JAN 2006

Author(s): Boinas, FS; Hutchings, GH; Dixon, LK; et al.
Source: JOURNAL OF GENERAL VIROLOGY  Volume: 85   Pages: 2177-2187   DOI: 10.1099/vir.0.80058-0   Part: Part 8   Published: AUG 2004

Author(s): Wesonga, HO; Bolske, G; Thiaucourt, F; et al.
Source: ACTA VETERINARIA SCANDINAVICA  Volume: 45   Issue: 3-4   Pages: 167-179   DOI:10.1186/1751-0147-45-167   Published: 2004

Author(s): Wesonga, HO; Bolske, G; Thiaucourt, F; et al.
Source: ACTA VETERINARIA SCANDINAVICA  Volume: 45   Issue: 3-4   Pages: 167-179   DOI:10.1186/1751-0147-45-167   Published: 2004

Author(s): Goncalves, R; Ferreira-Dias, G; Belo, A; et al.
Source: SMALL RUMINANT RESEARCH  Volume: 46   Issue: 1   Pages: 51-62   Article Number: PII S0921-4488(02)00172-4   DOI: 10.1016/S0921-4488(02)00172-4   Published: OCT 2002

Author(s): Grieco, V; Boldini, M; Luini, M; et al.
Source: JOURNAL OF COMPARATIVE PATHOLOGY  Volume: 124   Issue: 2-3   Pages: 95-101   DOI:10.1053/jcpa.2000.0433   Published: FEB-APR 2001

Author(s): Ferreira, AJA; Jaggy, A; Varejao, AP; et al.
Source: JOURNAL OF SMALL ANIMAL PRACTICE  Volume: 41   Issue: 4   Pages: 165-168   DOI:10.1111/j.1748-5827.2000.tb03187.x   Published: APR 2000

Author(s): Mellor, PS; Leake, CJ
Source: REVUE SCIENTIFIQUE ET TECHNIQUE DE L’OFFICE INTERNATIONAL DES EPIZOOTIES  Volume: 19   Issue: 1   Pages: 41-54   Published: APR 2000

Author(s): Abd El-Rahim, IHA; Abd El-Hakim, U; Hussein, M
Source: REVUE SCIENTIFIQUE ET TECHNIQUE DE L’OFFICE INTERNATIONAL DES EPIZOOTIES  Volume: 18   Issue: 3   Pages: 741-748   Published: DEC 1999

Author(s): Bashiruddin, JB; Santini, FG; De Santis, P; et al.
Conference: COST 826 Workshop on Ruminant Mycoplasmoses Location: THESSALONIKI, GREECEDate: APR 24-26, 1996
Source: VETERINARY RECORD  Volume: 145   Issue: 10   Pages: 271-274   Published: SEP 4 1999

Author(s): Scanziani, E; Paltrinieri, S; Boldini, M; et al.
Conference: Workshop on Mycoplasmas of Ruminants- Pathogenicity, Diagnostics, Epidemiology and Molecular Genetics of Cost Action 826 Location: THESSALONIKI, GREECE Date: APR 24-26, 1996 
Source: JOURNAL OF COMPARATIVE PATHOLOGY  Volume: 117   Issue: 2   Pages: 127-136   DOI:10.1016/S0021-9975(97)80029-1   Published: AUG 1997

Author(s): Carrasco, L; Bautista, MJ; GomezVillamandos, JC; et al.
Source: VETERINARY RESEARCH  Volume: 28   Issue: 1   Pages: 93-99   Published: 1997

ADENDA DE CITAÇÕES (10.Out.2015)

Seroepidemiological survey on Rift Valley fever among small ruminants and their close human contacts in Makkah, Saudi Arabia, in 2011
By: Mohamed, A. M.; Ashshi, A. M.; Asghar, A. H.; et al.
REVUE SCIENTIFIQUE ET TECHNIQUE-OFFICE INTERNATIONAL DES EPIZOOTIES  Volume: 33   Issue: 3   Pages: 903-915  Published: DEC 2014

Renal epithelial cells can release ATP by vesicular fusion
By: Bjaelde, Randi G.; Arnadottir, Sigrid S.; Overgaard, Morten T.; et al.
FRONTIERS IN PHYSIOLOGY  Volume: 4     Article Number: 238  Published: 2013

* * *
Nota pessoal
Conheci o Doutor José Petisca (nome por que era conhecido na Chamusca) e estive com ele em diversas situações: na sua residência em Lisboa acompanhando Joaquim António Emídio aquando da entrevista dada ao jornal O Mirante, em reuniões de trabalho no Laboratório Nacional de Investigação Veterinária e até numa viagem de serviço a Pinhel (tivemos um projecto de trabalho em comum, mas infelizmente não chegou a concretizar-se). Nesses contactos pude apreciar as qualidades humanas do Doutor José Petisca que caracterizam os homens sábios. 


(Foto Romão)     07.Maio.1977 - O Doutor José Petisca ao lado de sua esposa (x) 
num Encontro de Professores e Alunos da antiga Escola Secundária da Chamusca
organizado por João José Samouco da Fonseca, director da Chamusca Ilustrada.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Reformados e pensionistas, que mal fizeram eles?!

 Meu artigo publicado hoje em O MIRANTE online

Quando me convidou para colaborar no jornal, o Joaquim António Emídio disse-me: As pessoas estão fartas de política. Julgo ter entendido a mensagem, e até agora não falei de política. Mas ontem foi aprovado o Orçamento do Estado para 2013 pela Assembleia da República (AR), que parece ser um prego mais no caixão que nos há-de levar à cova!

Não vou falar de política... Vou antes socorrer-me de duas pessoas para o fazerem por mim. São testemunhos de pessoas esclarecidas que, como é desejável, pertencem a quadrantes políticos bem diferenciados. (Fonte: PÚBLICO, 28.Nov.2012.)

> António Bagão Félix (economista, ex-ministro das Finanças): A grosseira inconstitucionalidade da tributação sobre pensões

«Aprovado o OE2013, Portugal arrisca-se a entrar no “Guinness Fiscal” por força de um muito provavelmente caso único no planeta: a partir de um certo valor (1350 euros mensais), os pensionistas vão passar a pagar mais impostos do que qualquer outro tipo de rendimento, incluindo o de um salário de igual montante! Um atropelo fiscal inconstitucional, pois que o imposto pessoal é progressivo em função dos rendimentos do agregado familiar (art.º 104.º da CRP) mas não em função da situação activa ou inactiva do sujeito passivo, e uma grosseira violação do princípio da igualdade (art.º 13.º da CRP). (…)

Nas pensões, o Governo resolveu que tudo o que mexe leva! Mesmo – como é o caso – que não esteja previsto no memorando da troika. (…)

(…) quando se fala em redução da despesa pública há uma concentração da discussão sempre em torno da sustentabilidade do Estado social (…). Porque, afinal, os seus beneficiários são os velhos, os desempregados, os doentes, os pobres, os inválidos, os deficientes… os que não têm voz nem fazem grandes manifestações. E porque aqui não há embaraços ou condicionantes como há com parcerias público-privadas, escritórios de advogados, banqueiros, grupos de pressão, estivadores. É fácil ser corajoso com quem não se pode defender. (…)»

> Rui Tavares (historiador e eurodeputado): Da caducidade

«Ontem, a maioria na AR aprovou um orçamento irrealista – baseado em previsões económicas nas quais ninguém acredita –, injusto – punindo especialmente os trabalhadores, os pensionistas, o cidadão comum e, em particular, os mais vulneráveis –, e iníquo – estabelecendo objectivos de desvalorização interna e, em última análise, empobrecimento, que a maioria dos portugueses recusa.

(…) dezoito deputados do PSD decidiram apresentar uma declaração de voto na qual exprimiam o seu desacordo em relação às medidas fiscais do governo [!]. Esta era uma atitude [com que] apesar de tudo descarregariam a sua consciência. Pois bem, nem isso o autoritarismo imanente da política portuguesa permitiu: o aparelho do PSD logo encontrou maneira de esvaziar o mandato daqueles deputados. Mas, evidentemente, os deputados são também os culpados: nada, a não ser a pusilanimidade, os obrigaria a aceitar este enxovalho. (…)»

In Memoriam José Afonso (1929-1987)

25 anos passaram desde que José Afonso morreu.


O seu instrumento principal era a voz inesquecível 
a extraordinária invenção musical e poética.
António Pinho Vargas
http://www.aja.pt/pinho-vargas-sobre-jose-afonso/


Vampiros

No céu cinzento 
Sob o astro mudo 
Batendo as asas 
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo 
Chupar o sangue 
Fresco da manada 

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo 
E lhes franqueia 
As portas à chegada 
Eles comem tudo 
Eles comem tudo 
Eles comem tudo 
E não deixam nada 

A toda a parte 
Chegam os vampiros 
Poisam nos prédios 
Poisam nas calçadas 
Trazem no ventre 
Despojos antigos 
Mas nada os prende 
Às vidas acabadas 

São os mordomos
Do universo todo 
Senhores à força 
Mandadores sem lei 
Enchem as tulhas 
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia 
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

sábado, 24 de novembro de 2012

106.º Aniversário de Rómulo de Carvalho



Rómulo de Carvalho (Lisboa, 24 de Novembro de 1906 - Lisboa, 19 de Fevereiro de 1997), foi professor de Físico-Química no Liceu Pedro Nunes e Liceu Camões, pedagogo, investigador de História da Ciência em Portugal, divulgador de ciência, e poeta sob o pseudónimo de António Gedeão.

Académico efectivo da Academia das Ciências de Lisboa e Director do Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa. O dia do seu nascimento foi, em 1997, adoptado em Portugal como Dia Nacional da Cultura Científica. Cf. aqui .


Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O chão de Lisboa...

... num "espectáculo" habitual (este está em "exibição" há vários dias) na esquina do Largo do Leão com a Avenida Manuel da Maia (centro da cidade). Frequentemente os habitantes não têm acesso aos ecopontos. Com o passeio obstruído, as pessoas são "empurradas" para a faixa de rodagem dos carros. A quem pedir socorro e responsabilidades?


sábado, 17 de novembro de 2012

O meu ex-aluno João Lin Yun


Hoje tive o grato prazer de almoçar com o astrofísico João Lin Yun, meu ilustre ex-aluno na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (curso de Física de 1978-1983) e actual professor no Departamento de Física da mesma Faculdade. Não contactávamos há uns trinta anos... Foi bom o reencontro. Conversámos demoradamente.

Deixo aqui dois registos, para memória futura.

O primeiro é para assinalar a sua acção como divulgador científico, autor que é dos livros Como arrefecer o Planeta (2008) e Vida no Universo (2011).


O segundo é para assinalar um desabafo pessoal publicado no seu blogue O rei vai nu!:

No nosso mundo há atitudes e pessoas muito feias! Como são nojentos os jogos políticos e acções que se planeiam e se fazem nos bastidores do departamento universitário onde trabalho! Que contraste com a fachada de pessoas evoluídas, intelectuais, supostamente avançadas! Se num primeiro momento suscitam ira, pelo dano que causam às pessoas, aos colegas, aos estudantes, à instituição, logo a seguir já só conseguem gerar pena. Pena dessas pessoas, tão primitivas mas que acreditam ser melhores que os outros e se orgulham das suas acções de uma fealdade extrema mas para as quais são cegos!

Há outras situações na mesma Faculdade a que se poderia aplicar um desabafo similar. É o caso da injustiça que afectou o geólogo Fernando Ornelas Marques, que foi denunciado aqui .

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

É verdade, caí na asneira…



Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira sexta-feira
Vinte setenta e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez  a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira!


João de Deus de Nogueira Ramos (1830 – 1896), mais conhecido por João de Deus, foi um eminente poeta lírico, considerado à época o primeiro do seu tempo, e o proponente de um método de ensino da leitura, assente numa Cartilha Maternal por ele escrita, que teve grande aceitação popular, sendo ainda utilizado. Gozou de extraordinária popularidade, foi quase um culto, sendo ainda em vida objecto das mais variadas homenagens e, aquando da sua morte, sepultado no Panteão Nacional. Foi considerado o poeta do amor.
(Ver aqui)

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A cada um seu Elemento

Meu artigo publicado no jornal
O MIRANTE, 08.Nov.2012 (aqui)

É corrente dizer que alguém “está no seu elemento“ quando essa pessoa se sente bem com o que faz e com o enquadramento em que desenvolve a sua actividade, seja ela profissional ou outra.

Curiosamente esta noção foi recentemente aprofundada por Ken Robinson num livro publicado em 2009. Segundo este autor, o conceito de Elemento envolve a «circunstância em que se reúnem as coisas que adoramos fazer e as coisas em que somos bons». Para Ken Robinson, todos nascemos com capacidades extraordinárias, portanto é essencial alimentar o talento individual e “proporcionar ambientes – nas nossas escolas, nos nossos locais de trabalho… – onde cada um se sinta inspirado a crescer criativamente”.

A vida de cada um de nós é mais gratificante quando temos a possibilidade de fazer com paixão aquilo para que somos particularmente talentosos. Mas nem sempre isto acontece ou raramente acontece. Conheço, por exemplo, um bancário que gostaria de ter sido, e poderia ter sido, animador cultural… Todavia, também acontecem acasos felizes de sinal contrário. Foi o meu caso, o que me leva a recuar no tempo.

O neutrão foi descoberto em Inglaterra quatro anos antes de eu nascer. Quando a cisão nuclear foi descoberta na Alemanha, tinha eu pouco mais de dois anos. O primeiro reactor nuclear funcionou nos Estados Unidos da América três anos depois. 

Nessa altura eu vivia no Ribatejo, mais precisamente na Chamusca, nascido de uma família humilde. É claro que nesse tempo eu nunca tinha ouvido falar de neutrões, de cisão nuclear ou de reactores nucleares. Além do mais, a vida não era fácil: por exemplo, o racionamento do açúcar obrigava-nos a adoçar o café com rebuçados ou mel, e no inverno aquecíamo-nos junto a um fogareiro alimentado com serradura.

Nestas circunstâncias, eu nunca poderia ter imaginado que a minha actividade futura seria precisamente em domínios em que o neutrão, a cisão nuclear e os reactores nucleares iam estar sempre presentes. Tudo se veio a revelar no Laboratório Nuclear de Sacavém, onde comecei a trabalhar logo após ter terminado o curso na Faculdade de Ciências de Lisboa. A finalizar uma carreira de 40 anos, tive até a sorte de participar numa descoberta relevante no âmbito da Física de Neutrões, que tem sido amplamente citada a nível internacional.

Teria eu uns 13 ou 14 anos, quando alguém (certamente com razão para estar indisposto comigo) me gritou: Tu nunca serás nada na vida! Todavia, como a vida é feita de acasos, aconteceu tudo o que era necessário acontecer para que aquela “profecia” não se concretizasse. E assim, contra tudo o que era previsível na minha infância, acabei por encontrar no neutrão o meu improvável Elemento. Não desista o leitor de procurar o seu, contra todas as dificuldades.