quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Por favor, tirem-me daqui!


Meu artigo publicado no jornal O MIRANTE, 18.Julho.1995


Entristece constatar que há pessoas que se metem a escrever manuais para jovens estudantes dos ensinos básico e secundário, sobre assuntos que desconhecem, sem terem aparentemente a preocupação do rigor que a responsabilidade de ensinar exige, ou deveria exigir, em alto grau. Um dos domínios onde mais facilmente lhes escorrega o pé para o erro, pondo a nu as insuficiências, é o que diz respeito às aplicações da energia nuclear.
Quando abordam este tema, os autores em questão:
(1) Não explicam o que é a energia nuclear, apesar de se tratar de um dos marcos mais impressionantes da ciência e da tecnologia do século XX;
(2) Não conseguem ultrapassar os preconceitos existentes a nível de opinião pública, em relação ao nuclear, tantas vezes alimentados por pessoas incompetentes quando não mal-intencionadas;
(3) Não fazem a distinção entre aplicações pacíficas e militares da energia nuclear, o que se presta a equívocos e mal-entendidos;
(4) Não estabelecem a necessária comparação entre vantagens e desvantagens das diferentes alternativas energéticas disponíveis, nomeadamente no que se refere ao impacte que os diferentes tipos de centrais termoeléctricas têm sobre o Homem e o ambiente;
(5) Não esclarecem os estudantes sobre o papel que a energia nuclear pode desempenhar como umas dessas alternativas energéticas, que, aliás, já foi adoptada em dezenas de países, entre os quais se encontram os mais desenvolvidos social e economicamente;
(6) Enfim, limitam-se praticamente a agitar o “papão” da energia nuclear, sem darem aos jovens a oportunidade/possibilidade de terem ideias próprias sobre a matéria em causa, e depois, candidamente, pedem-lhes que dêem uma opinião sobre o assunto!...
O mínimo que se pode dizer é que tal procedimento não é sério. Cada um é livre de ter - e deve ter - as suas opiniões, mas, para formular juízos e chegar a conclusões, é necessário recorrer a argumentos objectivos e racionais. Um manual escolar, se não respeitar este princípio, não respeita os estudantes a que se destina e, em última análise, não cumpre a sua própria finalidade como elemento de formação.
Vem isto a propósito do livro intitulado Ritmos e Mudanças (Porto Editora, 1995) destinado a estudantes do 10.º ano da disciplina de Ciências Físico-Químicas. Na página 273, na sequência de uma brevíssima introdução, pode ler-se: «Estas centrais [centrais nucleares], embora permitam produzir electricidade a baixo custo, têm desvantagens. São bem conhecidos os perigos da chamada energia nuclear. Convidamos-te a promover o debate sobre o tema Se construíssem uma central nuclear próximo de minha casa...”».
Em meia dúzia de linhas, as autoras do livro:
(a) Dão como pacífico o «baixo custo» da electricidade produzida por via nuclear, quando a verdade é que esta questão é controversa e tem de ser analisada no contexto específico de cada situação;
(b) Dão como pressupostas as «desvantagens» da energia nuclear, sem explicarem quais e em relação a quê, e sem esclarecerem se há outras vantagens para além do tal «baixo custo»;
(c) Dão como adquirido que «são bem conhecidos os perigos da chamada energia nuclear», o que é demasiado fácil e manifestamente insuficiente - que sentido faz, por exemplo, afirmar que «são bem conhecidos os perigos de andar de automóvel»?
(d) Até levam a admitir que uma central nuclear pode ser construída em qualquer sítio, porventura ao virar da esquina.
Com estes dados, os estudantes são depois convidados «a promover o debate sobre o tema Se construíssem uma central nuclear próximo de minha casa...”». Pergunto: Que debate? Com que elementos informativos? Com quem? Lamento muito, mas não acredito neste tipo de pedagogia. Nem na bondade do propósito.
Pela minha parte, com os “entretantos” fornecidos pelas autoras do livro como primeiríssima pista para o debate, ficaria com vontade de gritar: “Por favor, tirem-me daqui, que estão a construir uma central nuclear ao fundo da minha rua!”.

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