domingo, 31 de março de 2013

A “narrativa”... pelo próprio e a cores

A “narrativa” apresentada na RTP é uma velha história conhecida dos portugueses. Só convence os que de antemão já estão convencidos. O mais que posso dar para este peditório é recordar um post publicado há cerca de dois anos (ver aqui).


«(...) Muito se tem falado sobre o “prossionalismo” de Sócrates, do seu virtuosismo mediático, de conseguir falar apenas do que lhe interessa, de encostar os adversários à parede, etc., etc. Provavelmente, neste tipo de coisas, será rei. Mas é precisamente o tipo de político de que Portugal não precisa: não precisamos de quem negue e mascare a realidade em permanência, de quem escamoteie as suas responsabilidades, de quem seja um ás na culpabilização dos outros. Pode haver quem considere esta actuação como o expoente máximo da sabedoria política. Eu vejo-a como um miserável manobrismo de um homem cujo ego lhe subiu tanto à cabeça que deixou de ver o país. (...)»

Esther Mucznik 
in O tempo de Sócrates acabou
PÚBLICO – 19.Maio.2011

sexta-feira, 22 de março de 2013

Previsões e conversa da treta

Meu artigo publicado ontem no semanário O MIRANTE

Julgo que toda a gente gosta de fazer previsões ou de beneficiar das previsões de outrem. Todavia, previsões há muitas e nem todas são credíveis. Uma coisa é um astrónomo fazer a previsão de um eclipse que acontecerá no sistema solar daqui a uns anos, outra é um astrólogo “prever” uma melhoria das finanças pessoais na próxima semana, com base na data de nascimento...

Que esperamos nós das previsões económicas feitas pelos governantes e pela “troika”? Esperamos certamente que sejam previsões mais do lado da astronomia… Ora não é isso que se tem verificado em Portugal desde há dois anos. Eu bem sei que a economia não é uma ciência exacta, mas há limites para os erros de avaliação, certo?

Os resultados da 7.ª avaliação do “programa de ajustamento” foram agora conhecidos. Perante o falhanço sistemático das sucessivas previsões, é caso para duvidar que se trate apenas de incompetência. Talvez tenha razão a D. Joaquina, 91 anos, 230 euros de reforma, que disse recentemente a'O MIRANTE (Ano XXV, N.º 1081, 14.Março.2013, pág.16): «Sempre achei que um dia os donos do dinheiro iriam voltar atrás e vingar-se do povo».

Falando apenas do indicador económico mais significativo para as pessoas, o desemprego, uma pergunta ocorre: Como é possível haver diferenças tão brutais entre as previsões e os valores reais? Em 2011, as luminárias previram que o máximo do desemprego seria atingido em 2012, mas não, agora é em 2014; pior do que isso, previram que o máximo do desemprego seria 12,4%, mas não, agora é 18,5% (!), o que corresponde a mais 330 mil pessoas desempregadas. Olhando para o rosto hirto e distante do ministro das Finanças ao dizer o que disse, quase não nos surpreenderia que tivesse dito que são “apenas” mais 330 mil desempregados.

Perante tão crassos erros, como é que ainda têm o arrojo de fazer previsões para 2015 e 2016? Estarão mesmo à espera que os portugueses acreditem no que dizem? Ou será que eles próprios não acreditam no que nos estão a dizer?

O primeiro-ministro veio afirmar a seguir que “previsões são previsões”, o que toda a gente sabe, acrescentando que o caminho passa por “aproveitar estas previsões para trabalhar no sentido de evitar que elas possam ser uma certeza”, que é precisamente aquilo que não tem sido feito.

Finalmente, deixo-vos com uma passagem da “conversa” do ministro das Finanças: «A revisão dos limites foi calibrada de forma a garantir uma constância na persistência do esforço de consolidação orçamental ao longo de tempo, de forma a conciliar os efeitos do ajustamento com a necessidade de ancorar a dívida pública e do financiamento dessa dívida.» O leitor percebeu? Não? Não se preocupe, o ministro estava falando para inglês ver.


PS – Este artigo foi enviado por email para O MIRANTE no domingo dia 17 de Março às 09h38, antes portanto de o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, no jornal da noite da TVI, se ter referido às previsões do ministro Vítor Gaspar como parecendo ser de um astrólogo... Fica aqui o registo, para memória futura. 

Ilustração: http://carpinteira.blogspot.pt

quinta-feira, 21 de março de 2013

Dia Mundial da Poesia – três poemas para uma ilustração de Miguel Horta

Miguel Horta


1
sempre assim
espera(nça) inquieta
doída desassossegada
pela outra quase nada
que voa em mim
sempre
assim


2
e se
fosse mesmo isto
a (triste) casa:
ficar ficar ficar
sem sonho
sem desejo
nem desassossego
nem asa?


3
há na saudade
um não sei quê
de laranja
começo
fim de dia
desencontro
lágrima
fado
poesia


Teresa Martinho Marques

quinta-feira, 14 de março de 2013

Um nada, o outro nem isso!

Meu artigo publicado hoje no semanário O MIRANTE

Quando se é professor, é vulgar haver situações em que se é solicitado para qualquer coisa do tipo “veja lá o que pode fazer”. Foi o caso do senhor reitor da Universidade que me telefonou um dia, quando eu dava aulas de Física Atómica na Faculdade de Ciências de Lisboa. O aluno tinha tido nota baixa na prova escrita, o que o impedia de ir a exame oral. Eu ainda disse ao reitor que sempre aproveitava tudo o que podia ser aproveitado na escrita para dar a oportunidade da oral, mas que iria rever a prova. Reapreciada a prova escrita, nada havia a acrescentar à nota… e tudo ficou como estava. Julgo saber que o senhor reitor não apreciou a minha falta de flexibilidade.
Situação mais delicada foi quando um professor da Faculdade, que havia sido meu assistente, veio a minha casa para me dar conta da preocupação de uma mãe viúva a quem o filho informara que eu não lançara a nota na pauta, porventura por esquecimento... Ora o aluno era filho e tinha o apelido sonante de um eminente matemático já falecido, e eu nem sequer tinha memória de que alguém com esse apelido tivesse sido meu aluno. Perante a insistência do meu interlocutor – “essas coisas acontecem”, dizia ele, ao que afirmei “comigo nunca aconteceram” – dispus-me a marcar um encontro com o dito aluno para o conhecer e esclarecer a situação. O visado não compareceu ao encontro… e o professor acabou a pedir-me desculpa embaraçado com o sucedido.
Um professor de uma escola de engenharia procurou-me um dia no meu gabinete do Laboratório Nuclear de Sacavém. Queria falar-me de um concurso para preenchimento de uma vaga na carreira de investigação a que concorria um seu familiar. Acontece que o candidato fazia parte da minha equipa, mas eu não fazia parte do júri do concurso. Quando perguntei ao meu interlocutor o que pretendia ele exactamente, deu-me a entender que há sempre maneira de interceder… Registei a novidade (para mim) de que se pode dar um jeitinho “por fora”. O concurso acabou mal para o candidato.
Estas evocações fazem-me lembrar uma história que me foi contada pelo falecido doutor José Nunes Petisca, distinto médico veterinário chamusquense. Dois irmãos iam fazer exame oral da mesma disciplina no mesmo dia, e o pai solicitou um empenhozinho ao professor, que era seu amigo. Finda a prova do primeiro irmão, que correu pessimamente, o professor perguntou-lhe se ele sabia nadar. Que sim, sabia, respondeu o aluno estranhando a pergunta. A cena repetiu-se exactamente com o segundo irmão, que à última pergunta respondeu que não sabia nadar. Reprovaram ambos. Quando o pai interrogou o professor sobre o resultado, este justificou-se: Que podia eu fazer? Um nada, o outro nem isso!

terça-feira, 12 de março de 2013

quinta-feira, 7 de março de 2013

Questões de linguagem

Meu artigo publicado hoje no semanário O MIRANTE

A Lei n.º 46/2005 estabelece, explicitamente, que «O presidente de câmara municipal e o presidente de junta de freguesia só podem ser eleitos para três mandatos consecutivos». Dito isto, e apenas isto, parece não haver qualquer dúvida de que a finalidade da lei é evitar a eternização dos autarcas. Findos três mandatos consecutivos, os senhores presidentes cessam funções, ponto final. E percebe-se que assim seja, porque já Eça de Queiroz dizia: “Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão”.


Diz-se que, em política, o que parece, é. Todavia, neste caso da limitação dos mandatos autárquicos, uma disposição legal que é clara e óbvia tornou-se misteriosamente numa dúvida obscura. Parece que por duas razões: (1) porque a presidência da república descobriu ao fim de oito anos (!) que, na fase de publicação da lei, havia sido trocado um “da” por um “de”, e (2) porque se aproximam as eleições e a certos políticos convém mais o “da”. Para mim – que sou um simples cidadão e não tenho os pergaminhos das numerosas e mui ilustres personalidades que têm perorado sobre este momentoso problema – esta tergiversação dá-me vontade de rir, para não dizer que me dá vontade de vomitar.
Já agora, aproveito para chamar a atenção para um pormenor da lei que não tem sido referido. No artigo 1.º aparecem duas expressões conflituantes: no ponto 1 lê-se «O presidente de câmara municipal e o presidente de junta de freguesia (…)», mas no ponto 2 lê-se «O presidente da câmara municipal e o presidente de junta de freguesia (…)». Não seria de nomear uma qualquer comissão para esclarecer este gravíssimo problema?
Há vinte anos, quando o presidente da república era primeiro-ministro, também houve um caso muito comentado. Foi o enigma de uma certa vírgula – que estava onde não devia estar, ou não estava onde devia estar, pouco importa – num decreto-lei. É conhecido o valor da pontuação num texto, mas a questão é outra. A questão é as vírgulas se permitirem andar por aí à deriva… não estarem onde deveriam estar e com isso alterarem o sentido de leis que a todos afectam – mais a uns do que a outros, em geral, dependendo de se ter ou não uns trocos para contratar bons advogados.
Ainda a propósito de linguagem, parece-me que os dicionários deveriam ser revistos. Pelo menos é o que se infere da nova linguagem do governo. Por exemplo, o leitor já reparou que agora, no melífluo palavreado do primeiro-ministro e do ministro das finanças, a palavra “cortes” tem vindo a ser substituída pela palavra “poupanças”? Deve ser porque a palavra “cortes” lembra golpes, sangue… e a palavra “poupanças” sugere ponderação, virtuosidade! Ou estarei a tresler?

segunda-feira, 4 de março de 2013